Certa vez, mais precisamente hoje, entrei num ônibus de volta pra casa.
Não havia um par de assentos vazios e com os olhos fiz o breve jogo de julgamento pela aparência que me faria decidir onde me sentar.
Sentei então ao lado de um velho tatuado, de fato não era a opção mais "bem aparentada" mas eu queria me sentar com alguém excluso, um 'outsider', marginalizado, julgado e cansado como eu. Tenho consciência que foi babaquice julgá-lo assim só por sua aparência, mas não importa mais.
Ao sentar-me ao seu lado, percebi que as tatuagens levavam nomes e faces de orixás, frases sem sentido, flores e máscaras, nada muito bem feito, mas era o que era. Refleti se realmente deveria ter sentado ali, se ele poderia me passar algo ruim. É triste o que a sociedade implanta na nossa cabeça desde cedo, não é? A gente julga até sem querer...
Depois, pensei o por que dele ter escolhido o candomblé ou seja o que for que ele era. Pensei vários motivos e por fim nada. Aquela figura virou passado e eu não me importava mais com quem ele era, o que fazia, mas me sentia extremamente confortável ao seu lado, porque ele não me olhava e nem veio conversar bobeiras curtas sobre o trânsito ou o calor.
Os minutos que se seguiram foram concentrados no livro que estou lendo, é incrível como realmente consigo me prender à leitura de forma a esquecer tudo ao redor.
Sei quando estou chegando em casa, pois o ônibus precisa entrar em uma rua fazendo uma acentuadíssima curva à direita. É uma subida e não há barreira de proteção, sempre imagino que o motorista pode desmaiar e passar direto. Às vezes me preocupa, às vezes não.
Fecho o livro às pressas, guardo na bolsa e ao me levantar, uma brisa leve passa pela janela e toca suavemente meu rosto, um sorriso se abre, pois sei que estou em casa.
E toda a aflição, tristeza, medo, até o senhor tatuado de orixás, se perdem como um grão de areia.
E assim eu volto, mudada, cansada, quebrada, mas enfim, feliz.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Insensato, insensível
É quase pecado pensar que sairemos ilesos de qualquer maldade humana.
Ora, não somos tão especiais assim.
Precisamos ser fortes, Agnes.
Ora, não somos tão especiais assim.
Precisamos ser fortes, Agnes.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Para Agnes
Se lembra da janela que tinha no teu quarto?
Lembra que quando eu estava lá, tinha medo de colocar a cabeça pra fora dela?
Você achava engraçado eu ficar assim.
Então,
Hoje eu abri aquela janela. E eu saí por ela, escorregando pelo telhado de maneira engraçada.
Acabei por sair atrás do seu prédio, num lote vago.
Lá encontrei, entre sacos de lixo e restos de materiais de construção, uma amêndoa.
É, uma amêndoa.
E olhando-a bem de perto percebi que ela tem a cor exata dos teus olhos.
Ou seriam teus olhos a cor exata dela?
Ovo ou galinha.
Isso não importa, mas eu achei engraçado.
Comecei até a pensar, que você insistia tanto na janela só para que eu pudesse encontrar lá nos fundos, a amêndoa.
E que talvez haja muito mais do que posso imaginar.
Por trás daquela janela.
Lembra que quando eu estava lá, tinha medo de colocar a cabeça pra fora dela?
Você achava engraçado eu ficar assim.
Então,
Hoje eu abri aquela janela. E eu saí por ela, escorregando pelo telhado de maneira engraçada.
Acabei por sair atrás do seu prédio, num lote vago.
Lá encontrei, entre sacos de lixo e restos de materiais de construção, uma amêndoa.
É, uma amêndoa.
E olhando-a bem de perto percebi que ela tem a cor exata dos teus olhos.
Ou seriam teus olhos a cor exata dela?
Ovo ou galinha.
Isso não importa, mas eu achei engraçado.
Comecei até a pensar, que você insistia tanto na janela só para que eu pudesse encontrar lá nos fundos, a amêndoa.
E que talvez haja muito mais do que posso imaginar.
Por trás daquela janela.
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